Três anos depois: atrocidade, assassinato e a eterna missão de lembrar do que fizeram com Dandara no país que mais mata pessoas trans - Paraíba Feminina

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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Três anos depois: atrocidade, assassinato e a eterna missão de lembrar do que fizeram com Dandara no país que mais mata pessoas trans



Desde pequena, Dandara se mostrava uma criança diferente.

Gostava de contar piadas e de imitar a Gretchen. Pelo fato de ter nascido num corpo masculino, o comportamento de Dandara causava estranheza.

“Mãe, eu já nasci garota!”, dizia Dandara à sua mãe, dona Francisca.

Aos 18 anos, finalmente Dandara se assumiu publicamente como mulher trans. Dona Francisca ficou preocupada: primeiro porque ela sabia que a filha estaria exposta à violências que ela sequer conhecia; e segundo porque Dandara não tinha uma profissão, e ela sabia como as mulheres trans conseguiam se sustentar. Dona Francisca é uma mulher simples, sem estudo, da periferia, mas possui uma sabedoria e uma verdade que a própria Dandara preferiu ignorar.



Dandara saiu de Fortaleza e foi morar com uma irmã no Rio de Janeiro. Voltou um tempo depois, magra e doente. Mas o sonho de ter um amor pra chamar de seu, e de ser uma comediante de sucesso, ainda alimentava a cabeça daquela moça de grandes olhos azuis, que escondia um resquício de beleza dentro da vida dura que ela havia passado, mas que preferia esconder.

Num final de manhã de 15 de fevereiro de 2017, Dandara estava sentada numa calçada perto de casa. Um homem se aproximou e eles conversaram um pouco. Não se sabe o que falaram, mas Dandara subiu na garupa da moto. Estava sorrindo, estava feliz.

Poucos dias depois, um vídeo começa a circular. Nele, Dandara aparece sendo espancada. Leva chutes, é agredida na cabeça com um pedaço de madeira, leva chineladas, é humilhada. Seu rosto ensanguentado, chora. Ela chama pela mãe. Os criminosos ordenam que ela suba num carrinho de mão, Dandara não tem forças. Eles mesmos jogam o corpo magro e sujo de sangue no carrinho, e saem descendo a rua. Dandara continuou a ser espancada e foi deixada no calçamento quente do início da tarde, e morreu sozinha, chamando pela mãe.

Dona Francisca


“Minha maior dor é que ele chamou por mim. Enquanto batiam nele, ele dizia: 'Eu quero minha mãe. Cadê a minha mãe?' E eu não estava lá.”, diz dona Francisca.

As imagens só foram viralizadas porque seus algozes se sentiram orgulhosos do que fizeram. Era um troféu. Era a amostra de que aqueles sub humanos se sentiam ‘homens’. Era a prova de força e do poder do macho nordestino. E talvez o que torne mais peculiar a gravação e a publicação do vídeo, é que por conta dele, se causou comoção. Dandara teria virado estatística se o vídeo não tivesse rodado o Brasil. Um paradoxo difícil de entender e aceitar. O ideal é que Dandara vivesse num país em que uma mãe não precisasse ter medo de ter um filho ‘diferente’.

A repercussão do caso levou à uma reação bem rápida. Dos 10 indicados no caso, cinco adultos foram levados à júri popular e quatro adolescentes estão cumprindo medidas sócio educativas. Um último envolvido, Francisco Wellington Teles, o homem que pilotava a moto que levou Dandara à morte, estava foragido até março de 2019, e ainda aguarda julgamento.

Três anos se passaram desde o assassinato de Dandara. O Brasil continua sendo campeão no assassinato de travestis e transexuais. No ano de 2019, foram confirmadas informações de 124 Assassinatos de pessoas Trans, sendo 121 Travestis e Mulheres Transexuais e 3 Homens Trans. Destes, encontramos notícias de que apenas 11 casos tiveram os suspeitos identificados, o que representa 8% dos dados e que apenas 7% estão presos.

*não iremos disponibilizar o vídeo ou imagens da violência contra Dandara

Taty Valéria

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