Trabalho doméstico, violência e vulnerabilidade! Os impactos da pandemia sobre as mulheres - Paraíba Feminina

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quarta-feira, 25 de março de 2020

Trabalho doméstico, violência e vulnerabilidade! Os impactos da pandemia sobre as mulheres


Mesmo quando também trabalham fora, as mulheres realizam a maior parte do trabalho doméstico. Cabe a elas, ainda, quase todo o esforço em atividades de cuidado não remunerado – voltado aos idosos e crianças, por exemplo – no âmbito familiar.

Por isso, as medidas de contenção do novo coronavírus, como a suspensão de aulas e a exigência de que famílias fiquem em casa, têm deixado muitas mulheres ainda mais sobrecarregadas.

Para aquelas que estão em regime de home office, equilibrar o trabalho remunerado com as milhares de tarefas da chamada jornada dupla, contando com pouca ou nenhuma ajuda de companheiros e outros membros da família, não é tarefa fácil.

Elas também são maioria em algumas das categorias profissionais economicamente mais vulneráveis aos efeitos da pandemia, como faxineiras diaristas. E, no sistema de saúde, estão na linha de frente dos cuidados prestados aos infectados pelo vírus, já que são ampla maioria na área de enfermagem.

Sobrecarga em casa

Segundo dados divulgados em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mulheres dedicam em média 18,5 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, na comparação com 10,3 horas semanais gastas nessas atividades pelos homens. Essa rotina deve ficar ainda mais intensa com as restrições impostas pela pandemia.

Há ainda a situação das mais de 11 milhões de famílias no Brasil compostas por mães solo, que podem não ter com quem compartilhar o trabalho dentro de casa. Muitas contam com o apoio de parentes, entre eles pessoas mais velhas, com quem não poderiam ter contato no momento atual – idosos fazem parte do grupo de risco da covid-19 e autoridades recomendam que eles não se encontrem com pessoas mais novas para evitar contaminação.

“Eu sinto como se tivesse cinco empregos”, afirmou uma mulher ao jornal americano New York Times. Ela está trabalhando de casa e tem dado aulas para os dois filhos de sete e nove anos durante a pandemia, coordenando essas atividades com as tarefas domésticas, como cozinhar e limpar. Seu marido é funcionário do estado e continua indo trabalhar.

Além do trabalho doméstico e de cuidado, há ainda a carga mental do trabalho emocional, ainda mais invisível. São as mulheres que em geral tomam a frente no planejamento e no gerenciamento da casa e do cotidiano, tentando prever as necessidades de todos e se preocupando com a saúde da família.

“Momentos como esse são especialmente críticos para mulheres. Muitas podem não fazer parte do grupo de risco, mas sempre serão parte do grupo de cuidados. É a pergunta: quem cuida de quem cuida?”

Denise Pimenta
doutora em antropologia pela USP, ao Tab Uol

Em sua pesquisa de doutorado, Pimenta estudou como a epidemia do ebola atingiu Serra Leoa, na África. A doença matou mais mulheres do que homens no país, por elas ficarem mais responsáveis pelos cuidados com os doentes. No caso do coronavírus, mesmo com uma letalidade menor, a antropóloga afirma que a carga “emocional, psíquica e física” do cuidado também recai sobre as mulheres, principalmente sobre as mais pobres.

Violência doméstica
Outra dimensão da desigualdade de gênero enfrentada pelas mulheres dentro de suas casas é a violência. É no ambiente doméstico que elas correm maior risco, e o período mais longo passado dentro de casa com outros membros da família aumenta essa exposição.

Na segunda-feira (23), o noticiário RJTV, da Rede Globo, divulgou que a Justiça estadual do Rio de Janeiro já havia registrado um aumento de 50% nos casos de violência doméstica nos dias anteriores, em que muitas pessoas passaram a adotar o confinamento.

A preocupação com as vítimas de violência doméstica durante o período de distanciamento social e quarentena não é só brasileira, mas global. A Organização Mundial da Saúde estima que uma a cada três mulheres no mundo sofrem violência física ou sexual, na maioria das vezes perpetrada por um parceiro íntimo. Para essas mulheres, ficar em casa para conter a disseminação do vírus significa estar trancada com seu agressor.

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