A vacina do coronavírus ainda não foi encontrada porque a cientista que descobriria está cuidando da casa - Paraíba Feminina

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terça-feira, 26 de maio de 2020

A vacina do coronavírus ainda não foi encontrada porque a cientista que descobriria está cuidando da casa



A pandemia de coronavírus no Brasil tem afetado fortemente a produção científica de quem depende de estrutura e recursos públicos para pesquisar, mas, no caso das mulheres, o impacto foi brutal. Se já era desigual antes, só piorou com o combo home office, aula à distância, escolas fechadas e isolamento social.

Muitas mulheres precisam dar conta não só do trabalho, dos filhos, das refeições, da limpeza da casa, da educação das crianças e das angústias provocadas pela falta de apoio, respiro ou espaço, como também, não raro, de idosos ou doentes.

Juliana Fedoce Lopes, 39, como tantas outras mulheres, tenta conciliar as aulas remotas do curso de química da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) com a pesquisa pela qual ela é bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a atenção a Felipe, o filho único de 4 anos.

"A universidade não suspendeu o calendário por conta da pandemia. Eu e meu marido, também professor pesquisador, estamos dando aula remotamente, embora as atividades de pesquisa e orientação da pós tenham ficado negligenciadas", conta

Ela conta que já ouviu de colegas homens que só conseguiu a bolsa do CNPq por ser da "cota mulheres e mães". "Mas a verdade é que, com filho pequeno, só consegui manter um ritmo de produção acadêmica graças a colaborações científicas feitas em parceira com meu marido [que também é químico] e por ter um ambiente igualitário em casa."

Levantamento do projeto brasileiro Parent in Science [do inglês, pais na ciência] tenta calcular o dano da pandemia e da desigualdade de condições para docentes, pesquisadores e alunos de pós-doutorado, doutorado e mestrado. Até o momento, 2.000 acadêmicos já responderam o questionário —70%, mulheres. Os resultados são preliminares, mas já revelam um cenário alarmante.

Perguntados sobre ter um artigo científico quase pronto ou em vias de publicação, os entrevistados analisaram o impacto do isolamento social na conclusão do trabalho: 52% das mulheres com filhos não concluíram seus artigos, contra 38% de homens

O número de artigos publicados por uma pesquisadora é condição essencial para aprovação dela em editais de projetos de pesquisa, concursos públicos e progressão de carreira.

Quem encabeça a iniciativa é a bióloga Fernanda Staniscuaski, 39, docente com pós-doutorado do Instituto de Biociências da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), casada com um cientista e mãe de três filhos —de um, quatro e sete anos.

Em 2017, ela criou o grupo para discutir a maternidade e paternidade no universo da ciência do Brasil, quando percebeu como era difícil conciliar dois filhos pequenos, na época, com o que chama de "rotina louca de pesquisa". "Foi um impacto muito grande na minha produção. Comecei a conversar com outras pessoas, que estavam na mesma situação, e resolvemos fazer algo."

Ela lembra que nada disso é novidade: estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que as mulheres gastam quase o dobro de tempo em afazeres domésticos que os homens, mesmo quando ocupam cargos Juliana Fedoce Lopes concilia cuidado com o filho, aulas remotas e atividade de pesquisa similares aos dos homens. "As pessoas têm a ilusão de que na academia essa situação apontada pelo IBGE é diferente.Não é", diz.

"Com crianças em casa, muitas alunas simplesmente não conseguiram cumprir os prazos e acabaram
prorrogando."

Os dados serão publicados e usados para obter condições de igualdade. A primeira coisa, diante da pandemia, será exigir que os prazos de submissão de relatórios de financiamento, pedidos de financiamento ou bolsas de pesquisa sejam estendidos.

"Caso contrário, quem vai conseguir fazer esses pedidos são os homens, nunca as pesquisadoras com filho, o que só vai acentuar essa desigualdade séria que já temos na academia", afirma Staniscuaski.

Outra ação, que surgiu após simpósio sobre maternidade com entidades ligadas à ciência no Brasil e deve ser reforçada agora, é brigar para que as informações sobre licenças-maternidade e/ou paternidade apareçam na plataforma Lattes, que mostra o currículo dos pesquisadores e professores atuando no Brasil.

"Sem contar que, no cenário da pandemia, a pesquisadora que está em casa e precisa produzir quando os filhos também precisam do equipamento para fazer as aulas à distância, e nem sempre há disposição deles ou rede suficiente para a família", diz a física Marcia Cristina Bernardes Barbosa, 60, professora na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências (TWAS).

Tudo isso, na opinião dela, deve ser explicitado no currículo. "Precisamos ter mecanismos compensatórios para essas mulheres, seja estendendo bolsas ou avaliando profissionais com a inclusão desse vetor adicional. Isso precisa ser incluído no Lattes."

Barbosa foi incluída pela ONU-Mulheres em uma lista de sete cientistas que moldaram o mundo graças a pesquisas em estruturas complexas da molécula de água. Ela, que não tem filhos e diz que só vê sua produção afetada quando viaja muito, entende que este seria um momento de ouro para que as mulheres turbinassem a carreira, também como comunicadoras científicas.

Dados brasileiros e norte-americanos provam isso. Tanto a revista de ciências sociais "Dados", da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), quanto o "American Journal of Political Science" e quanto dois editores de periódicos científicos fizeram relatos ou publicaram levantamentos que mostram que, durante a pandemia, as mulheres estão escrevendo mais artigos científicos em coautoria —e menos como primeiras autoras ou sozinhas, ao contrário dos homens.

"A média de manuscritos com as primeiras autoras mulheres entre 2016 e 2020 foi de 37%, mas esse patamar caiu substantivamente para 13% neste trimestre. Além de o menor percentual histórico do período analisado, trata-se de menos da metade da média para os anos considerados", afirma a publicação da Uerj.

da redação, com Universa

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