Torcidas antifascistas da Paraíba se organizam em meio ao levante nacional - Paraíba Feminina

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terça-feira, 2 de junho de 2020

Torcidas antifascistas da Paraíba se organizam em meio ao levante nacional

No Rio, manifestantes levantaram bandeiras antifascistas e contra o racismo - Foto: AFP


Após meses assistindo bandeiras neonazistas e faixas em defesa da ditadura tomarem as ruas do Brasil, as torcidas organizadas resolveram protestar pela democracia e contra o autoritarismo do governo Bolsonaro. Neste domingo (31), torcidas antifascistas de quatro grandes clubes de São Paulo foram à Avenida Paulista protestar. A Policia Militar os recebeu com bombas e balas de borracha, enquanto protegia apoiadores do fascismo que insistiam em provocar.

Das quatro torcidas antifascistas na Paraíba (Belo Antifa, Ação Antifa do Auto Esporte, Treze Antifascista e a Campinense Antifascista) duas delas estão mais articuladas: Bela Antifa (Botafogo da Paraíba) e a Auto Esporte Antifa (Auto Esporte Clube da Paraíba).

Hévilla Wanderley, integrante da Belo Antifa, afirma que as torcidas da Paraíba não pretendem ficar só assistindo: “Hoje todo mundo amanheceu antifascista, mas o antifascismo é um movimento anticapitalista formado por comunistas e anarquistas, e hoje muita gente está se autoproclamando antifascista, mas não é bem assim. Existe toda uma ideologia por trás do antifascismo que faz com que a gente busque a superação do sistema atual. A gente não é só contra o Bolsonaro que, logicamente é um presidente fascista. A luta central é contra ele, mas a gente luta contra a sociedade opressora, segregadora e desigual, que tenta matar os povos indígenas, tenta matar a população negra, que reprime a todos que são contra. A gente luta realmente por um um governo popular. O povo precisa chegar ao poder, então, não é um partido de esquerda, apenas. A gente quer uma revolução”.

Sagui, membro da Ação Antifa do Auto Esporte, comenta que a agremiação sempre teve ligações com o socialismo. “Nós fazemos parte de um clube que tem origens proletárias. Ele se originou na década de vinte (em 1924) a partir dos chauffeurs, que eram os chamados motoristas particulares na época. Eles eram sindicalizados. Havia um centro deles que representava essa categoria aqui em João Pessoa - na época era Paraíba do Norte. E eles sempre tiveram um protagonismo muito grande dentro das classes populares. O nosso fundador, o Boluciano Perez era um imigrante espanhol anarquista que fundou o centro dos chauffeurs aqui na Paraíba do Norte, bem como organizou o do Rio de Janeiro e o de Pernambuco. Então essa ligação com o socialismo e o anarquismo nos levou a ter o apelido de Clube do Povo”, conta ele.

Ele relata que o movimento antifascista do Auto Esporte, cujo lema é "Contra tudo e contra todos os Preconceitos", surgiu em 2018 no intuito de fazer oposição ao governo Bolsonaro: “Tem caráter anarco comunista mas há, também, a presença de elementos mais socialistas, mais trabalhistas dentro desse movimento que é feito por pessoas geralmente jovens, na faixa dos vinte e poucos anos. Então a gente tem levado as idéias antifascistas para dentro das arquibancadas, conscientizando torcedores para as questões sensíveis e sempre alertando sobre o perigo do radicalismo da extrema direita no Brasil”.

Há urgência na luta contra o capital no esporte: “Hoje em dia, por exemplo, você vê que as grandes arenas do Sudeste cobram preços abusivos para os torcedores. E há quem queira trazer isso aqui pro Nordeste. Nós somos veementemente contra essa ideia do capitalismo dentro do futebol. Queremos um futebol popular”, argumenta Sagui.

A Torcida Belo Antifa tem como lema “Contra todos os tipos de opressão, pelo futebol popular”. O movimento iniciou as atividades através do WhatsApp com ações mais voltadas para a formação e participação em protestos: “Foram entrando várias pessoas de esquerda progressista mas ganhou mesmo corpo quando saiu do grupo de WhatsApp e foi às ruas. Fizemos nossas primeiras camisas antes da eleição porque entendemos que precisávamos começar a nos levantar contra o Bolsonaro naquela época”, conta Hévilla.

Sobre o presidente de ultradireita, ela se posiciona: “O Bolsonaro e a pandemia se transformaram num prato cheio para destruir o restinho de conquistas que a gente teve durante os períodos do PT. Mesmo que não tenha sido revolucionário, mas foi importante, e a gente não nega isso”. E pondera sobre os obstáculos para construir e atuar: “Às vezes é bem complicado porque existe uma fragmentação muito grande na esquerda, inclusive nos coletivos e torcidas de futebol”.

Temas transversais

Outros temas são debatidos no que eles chamam de pautas de arquibancada: “A gente debate a questão da não privatização dos estádios porque prejudica o torcedor trabalhador. Quando você encarece os preços estádio, areniza, constrói grandes arenas, higieniza o espaço. Então a gente luta por um futebol mais popular para que o trabalhador tenha acesso ao futebol, que é de todos”, debate Hévilla.

As opressões diárias como machismo, sexismo, misoginia, lgbtfobia, além do preconceito aos nordestinos, fazem parte da luta nas arquibancadas: “A gente sabe o quanto o arquibancada é um lugar machista e lgbtfóbico. E, por mais que tenha muitos negros na arquibancada, ainda há muito racismo. Então a gente precisa transformar esses valores conservadores e ultrapassados. E o fato dos nossos times nordestinos estarem tão subalternos aos times do Centro-Sul também é uma luta que a gente precisa trazer à tona”, reflete ela.

A Ação Antifa do Auto Esporte aglutinou a maior parte das atividades fora da Arquibancada. “Fizemos campanha para arrecadação de alimentos e donativos para as pessoas de rua e abrigo de idosos. Temos outras campanhas em planejamento para doação de sangue ao Hemocentro (eles precisam nesse período da Pandemia). Porém, na arquibancada foi apoio incondicional ao Auto Esporte, principalmente ao futebol Feminino, conscientizando contra o machismo e os preconceitos e procurando chamar as mulheres de volta para a torcida. Hoje tem poucas mulheres justamente por causa do machismo”, observa Sagui.

Na final do futebol feminino do ano passado, a torcida fez uma faixa com a frase “Respeitem as Minas do Auto”, com o símbolo feminista inscrito no intuito de apoiar o futebol feminino e a presença das mulheres na arquibancada e na torcida do Auto Esporte.

Homens, mulheres, pessoas ligados ao movimento negro, e também LGBTS fazem parte da torcida antifa do Auto no que o movimento almeja ações mais concretas para conscientizar arquibancadas e torcedores em relação às questões sociais, como a lgbtfobia: “Hoje nos orgulhamos de dizer que somos um dos poucos movimentos de torcida na Paraíba que se manifestou no dia da consciência da luta dos LGBTs”.

As torcidas antifas da Paraíba são ligadas à Tau - Organização de Torcidas Antifa Unidas no Nordeste. É uma organização de ação política antifascista que reúne vários clubes do Nordeste, sejam eles de grandes, médio ou de pequeno porte. As bandeiras de luta envolvem o antifascismo e a conscientização para um novo futebol, contra a inserção do capitalismo no esporte e contra todas as formas de opressão.

matéria de Cida Alves, para o Brasil de Fato

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